quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Uma vida dedicada à comunidade

Aos 20 anos, o professor Ruy Pauletti chegou a Três Passos para lecionar nas comunidades rurais. Cinco meses depois, foi eleito vereador e, logo adiante, foi convidado a concorrer a prefeito, perdendo a eleição por pequena margem. Lecionou durante 25 anos. Ao longo de seus 72 anos de vida, também foi delegado de educação, coordenador de ensino, secretário de Administração da prefeitura de Caxias do Sul, da qual é cidadão emérito. Implantou e coordenou inúmeras instituições comunitárias e, por 12 anos, foi reitor da Universidade de Caxias (UCS). Nesse período, implementou a regionalização da instituição, levando-a a mais de 50 municípios. Promoveu a implantação do Hospital Geral e criou a Universidade da Terceira Idade, em que pessoas com mais de 50 anos podem ingressar em cursos superiores sem a necessidade de prestarem vestibular. Em 2002, elegeu-se deputado estadual pelo PSDB, sendo o mais votado do partido. Cumpre, agora, seu quarto ano como deputado federal. No Legislativo, desenvolve seu trabalho focado principalmente na defesa agricultura, da educação e dos idosos. A seguir, Pauletti fala, em entrevista exclusiva, para os leitores do jornal Cruzeiro:

O que o levou à carreira política?

Eu sempre atuei na política, nas mais diferentes formas. Aos 20 anos, chegado em Três Passos como professor, cinco meses depois eu fui o vereador mais votado. Aos 23 anos, fui candidato a prefeito. Se a campanha tivesse terminado uma semana antes, eu teria sido eleito. Voltando a Caxias do Sul, minha terra natal, depois de 20 anos, assumi a Coordenadoria da Educação e, tendo ido para a Universidade [de Caxias, a UCS], como funcionário, fui convidado a ser candidato a vice-prefeito. Não ganhamos a eleição. Enquanto eu estava como reitor da Universidade, não falei mais em política partidária, mas comunitária. Daí, foi um passo para o convite a ingressar no PSDB e a imediata candidatura a deputado estadual. Me elegi, fui o mais votado do partido e em seguida, para dar lugar aos mais jovens, aceitei ser candidato a deputado federal. Me elegi como o segundo mais votado (o falecido Júlio Redecker fez mais votos do que eu). Agora, estou indo à reeleição.

Como é fazer política de oposição ao governo Lula?

Neste atual governo é complicado. Este governo não é nada republicano. Ele trata os Estados da Federação com uma desigualdade enorme. Republicano é dar a todos igualmente. Além disso, é um governo mentiroso. Amordaçou e desqualificou, tornando o Legislativo um capacho do poder Executivo. Procura, através de atitudes, de medidas provisórias e de votações onde só se vota aquilo que o governo quer, desmoralizar o poder Legislativo. O ponto mais negativo que se pode ver é o decreto dos Direitos Humanos, envolvendo política fazendária, política econômica, estado de direito, mudanças que pretende fazer na própria Constituição, punindo agricultores, tudo dentro de um decreto arbitrário que, tenho certeza, o Legislativo não vai permitir que isso se transforme numa medida real. No momento em que houver um esclarecimento público, a própria sociedade há de reagir. A Igreja há de reagir. As Forças Armadas hão de reagir. E os partidos políticos da oposição (os demais foram cooptados pelo governo; vivem à sombra do Executivo) vão reagir.

O senhor é deputado do Parlamento do Mercosul. O que isso significa?

No Brasil, o Parlamento do Mercosul ainda não é conhecido, mas a Argentina, no Uruguai e o Paraguai dão uma importância muito grande. Foram convidados como observadores a Bolívia e a Venezuela. E agora, o Congresso Brasileiro autorizou o ingresso da Venezuela, contrariando aquilo que determina a formação do Bloco, de que só um país que defende a democracia plena pode fazer parte. E a Venezuela não pode ser considerada um país em que haja democracia plena.

A sede do Parlamento funciona em Montevidéu e existem alguns países, como o Paraguai, e que estará sendo seguido pela Argentina e pelo Uruguai, em que se dá uma votação direta, como se fosse votar para o Parlamento brasileiro, que elegem senadores e deputados (o Paraguai já elegeu). No Brasil, ainda por falta de entendimento e de especificar o número de representantes brasileiros no Mercosul, ainda não vai se processar a votação e por isto os deputados estão sendo indicados pelos partidos. Eu fui indicado pelo PSDB para representar o Brasil.

E o mandato vai até quando?

O mandato encerra no dia 1º de fevereiro de 2011.

O senhor é membro da Comissão Pró-Ponte do Rio Uruguai. O que existe de concreto nessa área?

Sou membro dessa Comissão para agilizar o protocolo existente entre o Brasil e a Argentina, para a construção de três pontes: em Itaqui, Porto Mauá e Porto Xavier. Mas aí, entraram Três Passos e Porto Soberbo e existe, portanto, uma dificuldade de definição sobre onde vai ser a primeira ponte. O decreto para a licitação sobre o estudo da primeira ponte está pronto, apenas não foi assinado, há quase quatro anos, quando eu era presidente da Comissão. Agora, como me dedico muito à infraestrutura do Rio Grande do Sul, estou trabalhando em uma outra ponte. Porque para os transportes hidroviário, ferroviário e rodoviário, não há nada previsto no PNV (Plano Nacional de Viação). Isto deveria ter sido feito há 20 anos, mas infelizmente não há nada. Meu trabalho é para incluir dois novos trechos ferroviários e vou trabalhar, agora, em dois novos trechos rodoviários. E sigo trabalhando na construção de uma ponte que é do interesse de Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, que é a RSC-363, que passe em Tenente Portela, que vai até o norte do Brasil. Mas para isto, temos que voltar a ser federal essa rodovia até Barra do Guarita e federalizar o trecho entre Itapiranga e São Miguel d’Oeste. Os estudos já estão sendo feitos. O nosso trabalho já foi comunicado ao governo do Rio Grande e a partir de fevereiro, vamos comunicar ao governo de Santa Catarina.

O senhor construiu sua vida profissional como professor. Como membro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, o que tem sido feito para o setor?

Nós tivemos a aprovação do teto mínimo, que há uma discordância agora. O governo do Rio Grande do Sul discorda de terem sido incorporados penduricalhos naturais; quer que seja o básico apenas sobre o salário real. Mas isto foi uma grande conquista para o setor. Para este ano, nós vamos ter o Plano Nacional de Educação, onde serão convocados todos os professores para se pronunciar sobre o que querem para os próximos anos.

Também conseguimos para o Rio Grande do Sul dez escolas técnicas. Foi criada uma universidade federal que abrange no norte do Rio Grande, Santa Catarina e o sul do Paraná. Haverá uma sede em Frederico Westphalen e nas Missões. Também foram criadas outras faculdades para o Estado.

Também estamos estabelecendo uma política pedagógica mais consistente com a realidade. Não é mais possível que, com a mesma carga horária de 50 anos atrás, aonde a necessidade do domínio do conhecimento era um décimo do que é hoje, se queira que o aluno aprenda tudo o que se exige hoje. É preciso aumentar a carga horária dos currículos, aumentar os dias letivos, acabar com as greves do magistério e, acima de tudo, uma pedagogia voltada ao conhecimento. Nossas escolas, hoje, parece que estão dedicadas a uma pedagogia moderna de ensinar o supérfluo. Os professores fazem seu próprio currículo. Não há cobrança. Agora, o Ministério da Educação inventou o Enem, para nivelar por baixo. Acaba com o sistema de mérito que era introduzido no vestibular. Estas são algumas das propostas em que estamos trabalhando.

O senhor é contra o Fator Previdenciário, que estabelece o cálculo das aposentadorias. O que o senhor propõe?

O Fator Previdenciário é uma desgraça. Infelicita a grande maioria dos aposentados. Todos aqueles que estão aposentados acima do salário mínimo, a cada ano eles perdem uma parcela. Conforme sobe a expectativa de vida do Brasil, o cidadão aposentado vai perdendo. Explico: a expectativa de vida era de 63 anos, há dez anos atrás, e o desconto do Fator Previdenciário era um. Hoje, a expectativa de vida é de 73 anos, então, como o tempo de contribuição foi aquele e o que ele vai viver é maior entre quando ele se aposentou e sua morte, o desconto, que é o meu caso, o meu desconto é maior. Quem ganhava dez salários mínimos de aposentadoria, em dez anos está ganhando cinco. Ele tinha projetado a vida dele para ganhar dez salários mínimos Ele pagou por isto. O Fator Previdenciário é prejudicial. O que o governo está querendo é inventar fórmulas que podem ser alteradas no decorrer do tempo, por isto nós precisamos acabar com o Fator. O governo não quer e, se não quer, infelizmente não será votado porque só se vota aquilo que governo quer e os partidos políticos vendidos para o governo abaixam a cabeça e concordam. Inclusive partidos como o PT, que sempre defenderam os aposentados.

Seu trabalho em favor dos idosos é reconhecido. Como é sua proposta para a implantação de Centros Dia?

Como deputado estadual, eu apresentei uma lei baseada no que existe de mais moderno no mundo para o segmento dos idosos, que está previsto na Constituição Federal, que se chama Centro Dia, que eu chamo carinhosamente de “creche para o idoso”. Ninguém me convenceu até hoje que a palavra creche é só para crianças. O que é isso? O cidadão idoso vai de manhã para o centro, que pode ser público ou privado e lá ele tem a atenção que merece um cidadão naquela idade, e à noite, ele volta para a casa dos seus familiares.

Você não pode desresponsabilizar o familiar de cuidar de seu idoso porque isso favorece a se mandar para um asilo, que é uma espécie de abatedouro. A solidão do asilo, por mais cinco estrelas que seja, é uma solidão que mata porque está afastado de seus familiares. E não é com 65 anos que ele vai conseguir fazer amizades como a que ele tem com a família. É lamentável ver o que acontece. São verdadeiros depósitos que acontecem com nossos idosos.

E quando não acontece isto, fecham o idoso dentro do apartamento, na cidade grande, porque não podem deixá-lo sair. Têm medo que ele se perca na multidão. Muitas vezes fechados numa sala porque ele não pode ligar o fogão a gás. O segmento dos idosos é o mais desamparado que tem no Brasil. Nos países asiáticos, o idoso é o sábio. Na comunidade européia, é respeitado. No Brasil, se demite quando chega aos 65, 70 anos, como se já não prestasse mais para nada, pela falta de políticas públicas.

E no âmbito federal, como está a proposta do Centro Dia?

Está tramitando. Já teve parecer favorável, só que os Ministérios da Saúde e da Assistência Social pediram que eu encaminhasse a proposta para eles. A minha preocupação não é que o projeto seja meu. O que eu quero é que os Centros Dia sejam implantados. Porque não adianta ter um Estatuto do Idoso, se não existem políticas públicas. O que existe hoje, para o idoso? É na fila do banco. É ter preferência na entrada do avião. Mas quantos idosos vão ao banco? Quantos idosos andam de avião? Isto é política pública? Isso é apenas respeito e educação. O que eu mais vejo são restrições. Vai comprar uma casa própria, uma pessoa com 65 anos não consegue mais que cinco anos de prazo para o financiamento. Que adianta o Estatuto do Idoso?

Que avaliação o senhor faz do governo Yeda Crusius?

Um governo de realizações, que cumpriu aquilo que prometeu, que saneou as receitas e os recursos públicos do Estado. Aquela conversa que se tinha em todas as campanhas: “eu vou resolver o problema das finanças do Estado” acabou. Essa bandeira não existe mais porque a governadora Yeda resolveu. Um governo que recebeu as mais duras críticas da oposição, infundadas. Um governo que terá agora, neste último ano, a possibilidade de mostrar que houve um gerenciamento correto dos recursos do Estado. Creio que a governadora, quando tiver a sua nova candidatura ao governo, será competitiva.

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